Tuesday, October 18, 2016

MEIA-NOITE E VINTE - DANIEL GALERA







Fala, galerinha do Youtube!

Após mais de cinco anos, atualizo o blog. Retirara-me com o objetivo de zerar Battletoads de Nes. Embora tenha me dedicado quase exclusivamente a isto, fracassei.

Aprendi muito sobre minhas limitações como gamer e pessoa no geral, sobre teimosia e incapacidade de desistir de atividades para as quais não tenho o talento que penso ou desejo ter. Aprendi também sobre a implacabilidade da vida, que, admito, não passa do outro lado da moeda da inaptidão incapacitante sugerida há pouco. Battletoads é uma metáfora para a vida. Você vai se foder e pronto.





O retorno à vida normal tem sido penoso. Voltei a trabalhar e a ser rejeitado por mulheres na night paulistana. Esporadicamente, acordo desesperado no meio da noite, de pesadelos com ratazanas gigantes, speeders que se chocam violentamente contra paredes que não deveriam estar lá, e cobras coloridas que saem da parede e somem para você pular em outra na hora exata, para não ter de começar tudo de novo.

Em parte deste tempo, é verdade, dediquei-me ao meu romance de estreia, que não vai estrear porque, por alguma razão incompreensível, o mundo não percebe minha genialidade. Mas isso é assunto para outra oportunidade.






Voltei a ler livros e o primeiro que me fez querer escrever de novo no blog foi o Meia Noite e Vinte, de Daniel Galera (Companhia das Letras). Não só o livro, mas também as primeiras resenhas. O retorno à internet devolveu-me um anseio antigo, de me exibir tendo como pretexto resenhar um livro. Quero seguir o exemplo dos resenhadores de internet, e aproveitar a oportunidade para falar não do livro, mas de mim, fazendo comparações e comentários a partir da minha bagagem que mostrem cultura e erudição.

Mas, infelizmente, meu repertório não é grande. Jogar Nintendo, certamente, não ajudou. Então, simplesmente direi o que achei do livro. Com spoilers.

O comentário mais frequente é que se trataria de um romance geracional. Mas não acho que foi escrito para ter esta representatividade específica. O livro é sobre pessoas com nível sociocultural acima da média, intelectualizadas, que estudam, pensam e escrevem. Aspectos específicos demais para representarem toda uma geração. No entanto, todos são essencialmente humanos, parecem vivos e suas questões podem ressonar em leitores de diversas gerações.

Parece haver sempre a necessidade de encontrar o “porta-voz” de uma geração. Tentam catalogar os autores jovens, porque a informação catalogada se passa facilmente por conhecimento, e fica parecendo que o resenhador manja de literatura.

Tento evitar o momento mais inútil, de encheção de linguiça, das resenhas: o resumo da trama e dos personagens. Enfim, quatro amigos publicavam um e-zine em Porto Alegre em 1999 e, em 2014, o único deles que se tornara escritor é morto em um assalto. Os outros três se reencontram e meio que tentam viver a vida em um mundo que pode ou não estar irrecuperavelmente fodido.





As resenhas vão falar sobre os anseios desta geração pós-moderna que pegou o começo da internet e moldou sua produção de conteúdo, e vão falar sobre como a vida adulta deles estaria em descompasso com o deslumbramento da juventude. Mas, para mim, isso não é exclusividade desta geração, mas sim um conflito universal que, por acaso, foi retratado nesta época. Assim, o livro tem referências a fatos recentes, como os protestos de 2013 e o uso de celulares e mídias sociais, que trazem verossimilhança.

Para mim, as questões mais importantes tratadas no livro são a afetividade e, em especial, o sexo. Ele está muito presente no relato de todos os personagens. É a questão mais relevante tocada pelo livro. Não me parece que a obra diga algo a uma geração específica, mas sim a uma faixa etária. Os personagens estão no fim dos 30 e início dos 40 anos. São pessoas às voltas de um equilíbrio entre vigor e experiência sexual.

Eles tiveram casos, encontros e masturbações suficientes para crerem conhecer o próprio desejo e com ele se conciliar.

Contudo, talvez seja este o problema. Não se trata de autoconhecimento, mas de uma racionalização de si que negligencia ou reprime parcialmente as vontades e desejos. Reprimidos, eles retornam sob uma forma diferente e influenciam o curso da vida dos personagens. Assim, os personagens não se relacionam satisfatoriamente com o ambiente e consigo mesmas. Também não ajuda o fato de viverem em uma época de excesso de informação e solidão.

Assim, Emiliano associa sexo a agressividade, tem fantasias violentas com frequência e arregaça uma máquina de lavar. Duque não sabia lidar com o fato de gostar do amigo. Antero é egocêntrico, tem várias parceiras e problemas no casamento. Aurora vive angustiada pensando no fim do mundo, busca contato íntimo se exibindo na webcam para estranhos anônimos e transa por desespero.

Talvez o próprio desejo seja insaciável e estejamos condenados a uma perene negociação com ele, firmando acordos fatalmente desrespeitados. Uma dívida que sempre volta.

Para mim, a ideia central do livro está sintetizada no trecho abaixo em que Francine conversa com Emiliano:

“Tem coisas que a gente quer viver e nunca vive. Porque não pode, porque não se permite. Essas coisas são monstrinhos criados no porão. Eles crescem. Murcham. Se deformam. Não se pode saber o que o porão vai fazer com eles. Mas ficam lá. A única coisa que não acontece com o monstrinho é sumir. Enquanto vivemos, ele vive.”







Sei que o “monstrinho no porão” pode ser os anseios em geral, e não apenas o sexual. Mas, o conjunto da obra pareceu-me tratar do desafio de estar vivo e lidar com as necessidades do corpo, sendo a mais crucial e angustiante o sexo, que atormenta os personagens. Estes são os desejos que mais costumam ser barrados, “porque não pode, porque não se permite”.

Enfim, gostei do livro. É sucinto e certeiro e, na minha opinião, trata de temas essenciais com maturidade.

Então, pessoal, gostaram do vídeo? Deixem seu like, se inscrevam no canal!







3 comments:

Anonymous said...

Se for escrever mais e frequentemente, cria um Twitter e vai avisando dos posts pra eu seguir. Se não, deixa pra lá.

Sandro Livio Segnini said...

Muito obrigado! Se eu conseguir me organizar e escrever, aviso.

Anonymous said...

pra outra anônima: usa algum programa/servico pra acompanhar o RSS de boas, ué. twitter é uma coisa, feed RSS é outra.